domingo, 5 de abril de 2020

Dobrado “Duzentos e Vinte”

“Dobrado”
Nem imaginava que na capital viesse um dia a morar.
Pela manhã seguia pela calçada da Dona Abigail em direção à Casa da Providência.  Calça comprida azul marinho, camisa polo branca com um brasão do colégio no lado esquerdo do peito. Não havia tantas matérias. Mas, havia o essencial: português, matemática, estudos sociais, ciências e educação moral e cívica. Já bastava!
Ao meio dia, ouvíamos o sino da igreja badalar às “onze e meia”.
E, antes que a irmã Granjeiro badalasse o do colégio, saíamos em disparada como um rebanho de cabritos desgarrados.
Subia na caminhonete do Zé Trajano e carona pegava, pois ele seguia até o escritório do INPS que ficava vizinho à minha casa.
Depois do almoço, a cidade silenciava e, num rompante o trem cortava o sono de todos com seu apito estridente!
O comércio abria!
Mamãe saía para o Colégio e o papai para a loja.
Ficava à mesa estudando e brigando para a Marieta diminuir o volume do velho Philco a tocar canções da Rádio Tupinambá de Sobral.
Logo o sol dava trégua e saía já banhado para passear de bicicleta.
Quando de longe se ouvia o maestro Marçal descendo da sede da banda com seus alunos! 
E saiamos acompanhando a banda admirados pelo som do Dobrado!
Era o Duzentos e Vinte.
Dobrado de autoria de Manoel do Espírito Santo que emoldurou muitas tardes alegres de minha terra querida! 
Depois esse Dobrado fez parte de minhas sextas-feiras nos paradões do Colégio Militar de Fortaleza. 
Já não tinha mais a roupa infantil e alegre de minha saudosa Reriutaba.
Agora entoava passos e espadas que batiam continência para velhos oficiais de quem tanta saudade também tenho!
Como e quão era pura e sem frescura minha infância emoldurada por essa canção!
Luiz Lopes Filho
Quarentena Chorosa

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Parmesão do Sertão

Quando a gente vinha de Santa Quitéria, papai comprava queijo bem fresquinho lá e não deixava ninguém cortar.
Armava uma tábua de quatro metros de comprimento  e trinta centímetros de largura e a ancorava nos caibros do telhado pelas pontas icados por quatro tiras de arame recozido. 
Entre a tábua e os caibros havia uma barreira de flandre para evitar que os ratos chegassem à tábua pelo famoso “cheiro do queijo”
E lá, ficávamos nós: nós e os ratos! Querendo comer aqueles queijos e o papai não deixava! 
Não por ser sovina, mas porque queria que os queijos envelhecessem!
E assim acontecia!
Depois de 2 meses, os queijos eram retirados daquela tábua suspensa e servidos no café!
Mas, nosso paladar infantil não era afeto ao do queijo envelhecido!
E o queijo era consumido todinho pelo papai!
Hoje, vemos que tudo é questão de gosto! 
E, em busca do queijo envelhecido, pagamos caro pelo parmesão faixa azul, nome que hoje se alcunha o queijo envelhecido de Santa Quitéria na tábua suspensa da despensa lá de casa!
“Relatos históricos do queijo parmesão!”
Luiz Lopes Filho 

domingo, 2 de junho de 2019

A lambreta

“A verdadeira história desse dinheiro”
Aos 25 anos, meu pai decidiu comprar uma lambreta italiana. 
Às oito horas da manhã, guardou o cartão do banco num dos bolsos laterais da calça de tergal, àquela época uma carta manuscrita contendo os dados do correntista filigranada em autorrelevo com dois selos da República.
Pegou o trem das 8 da manhã e seguiu viagem.
O tempo passou e ainda criança ele me contou o resto da história.
-Meu filho, fui a Sobral, mas quando recebi uma caixinha de madeira toda selada com 500 notas novas em série, fiquei com pena.
Voltei, guardei as cédulas no cofre e aí estão elas sem nenhum mais valor!
Nem dinheiro, nem lambreta!
-Puxa, pai! Como o senhor foi tolo!
-Talvez, mas ninguém sabe dizer a que destino me levaria esta lambreta. Hoje sei o destino que estas cédulas me levaram: o de estar com você hoje aqui!
Luiz Lopes e Silva 
1932-2019

Luto infantil

Em 1974, por volta de abril fui pescar no riacho da Ponte com meu primo Marcelo. 
Quando papai me viu saindo de casa com uma varinha e linha de nylon envolta num anzol de piaba, brigou comigo!
-Sua avó morreu! Estamos de luto! Naquele dia, minha vó Deolinda havia falecido e, papai perdido sua mãe! 
Para mim, com apenas 7 anos de idade, este sentimento não permeava minha mente infantil!
Hoje, ainda muito abalado com a partida do papai, fui obrigado pela minha filha e minha mulher a ir pra a aula de natação! 
Comecei e tentei me abstrair a cada braçada. Aos poucos, uma saudosa melodia ecoava de um saxofone no salão de danças da academia e me conduziu ao passado e às preferências musicais do papai.
Não suportei; minhas lágrimas pareciam me molhar mais que a própria piscina! Parecia que o papai voltava a brigar comigo naquele abril pelo luto de sua mãe, minha vó Diola!
Antes por ir pescar, hoje por ir nadar!
Coisas de saudade! Sei que meu pai não mais brigaria por isso!
Quanta saudade!
Quanta vontade de voltar àquele momento infantil!

Velas de meu pai

Quando meu pai partiu no domingo, um filme de imagens esquecidas não tem fim em minha mente. 
Reavivaram momentos tristes, mas os felizes foram mais coloridos! 
Lembro-me que para mim, menino de poucos e talvez 8 anos, dia de finados não era um dia triste!
Era um dia em que meu pai vendia de tudo em seu comércio. Desde bicicletas até velas.
E, em dia de finados, papai reunia dezenas de meninos para vender velas em caixinhas de papelão contendo de todo os tamanhos: pequenas, médias e grandonas, como assim chamávamos. 
Subíamos pelo beco dos Correios e sem oferecer, as pessoas já pediam um pacote de velas para homenagear seus entes que haviam se ido.
Naqueles trocados, havia nossa parte. 
Aos poucos, de três da tarde até cinco, o movimento aumentava e ia se concentrando no Cruzeiro.
O Cruzeiro era o marco zero do cemitério.
Ali muitas velas eram queimadas por pessoas que não encontravam os túmulos de seus entes. 
Dizia-se e amedrontavam-nos que ali se reuniam todas as almas abandonadas: boas, más, assustadoras e passivas. 
Aquele líquido parafinoso escorria do pé do cruzeiro e percorria as cicatrizes do chão rejeitado e sujo daquele local até perder o valor e solidificar-se em algum buraco de formigueiro.
Terminando a venda das velas, ia me encontrar com meu pai no túmulo da família Lopes & Calixto, onde ele passava horas e horas brigando com o vento pela permanência das velas acesas. 
Naquela época estavam sepultados somente meus avós José Calixto e Dona Deolinda Lopes. 
Todos os demais ali estavam prestando homenagem a seus pais: tio Sitônio, tio Osmundo, tio Deusdedit, tio Assis, tia Beatriz, tia Julita e, por fim, o caçula dos Calixtos: meu pai!
E os dias, anos, décadas correram rápido!
Hoje numa dor imensa, vi meu pai cruzar a imaginária linha de quem está dentro ou fora da lápide. De quem está aquém ou além! 
E não consigo me conformar com essa situação!
Antes era um dia de venda de velas e não sofria uma lágrima de saudades!
Hoje, não me imagino velar meu querido pai!
Amava meus tios! Meus avós não posso assim mensurar o amor. 
Não os conhecia no afeto por tão criança conviver ou nem! 
Mas, meu pai! Ah, papai! 
Não imaginava você sendo velado!
Te amo! 💕e o tempo muda tão rápido!
Ora estamos de um lado, amanhã doutro!
Sejamos fraternos e misericordiosos! 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Teoria da Máscara de Avião


Teoria da Máscara de Avião

Quando viajamos de avião, o comissário de bordo nos avisa que, em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão de um compartimento.
Orienta-nos que deveremos pôr a máscara em nós mesmos para depois ajudar quem está a nosso lado, principalmente se crianças forem.
Analogamente, deparamo-nos com este paradigma diariamente.
Seja no plano material ou espiritual. 
Como poderemos ajudar outrem a sair de um problema financeiro, se estamos com nossas contas atrasadas? 
Como poderemos apoiar alguém triste se deprimidos estamos?
Esta teoria vai antagonicamente em direção à boa prática cristã!
E então, como agirmos? 
Influenciados pelo celebrante da missa dominical ou orientados pelo comissário de bordo?
Ambos estão pensando no céu!
O comissário na queda abrupta do céu e o padre na subida ao mesmo!
Mensuremos pois em que plano ou cinética estaremos!
Nada na vida é absoluto! Tudo tem uma brecha de relatividade! E é por essa minhoca relativista que conseguimos visualizar o céu por uma fresta de uma janela!
Cuidemo-nos! Primeiro cuidemos-nos!




“Iuuurrrrrullll”


“Iuuurrrrrullll”


Nestes dias transgênicos, onde se impera os displays luminosos das tevês, tablets e telefones de versões dinâmicas, estamos muito acostumados ao conforto e à dependência absoluta da energia elétrica em nossas residências.
Só nos deparamos ante a grande importância da energia, quando nos falta luz e força!
O condicionamento é tão forte que, mesmo sabendo que faltou energia, automaticamente vamos aos interruptores ligar a luz ou à tomada, ligar nossos celulares.
Nesta noite somente permaneceu a luz das estrelas no céu e, aqui embaixo, pontos iluminados por geradores!
Muitos, em função da violência, permaneceram trancados em suas casas esperando a luz elétrica voltar.
Milhares de moradores permaneceram sem energia elétrica por muitas horas e ainda há muita gente sem luz em suas casas.
Sem energia, para de funcionar tudo e parece que ficamos atônitos totalmente e sem saber o que fazer.
É uma dependência irrestrita da sociedade contemporânea para com a energia.
Na minha infância não era assim!
Até gostávamos quando faltava energia!
Isto acontecia no período chuvosos: disjuntores ou transformadores “gripavam” com as primeiras gotas ou com os fugazes relâmpagos e deixavam a pequena cidade à luz de velas e lamparinas.
Lá em casa tinha um lampião. Era nossa luz de emergência movida a querosene que incandescia uma camisa de película que se desmanchava a um leve toque.
Faltou energia, havia dois caminhos a seguir correndo: ou para a cama de nossos pais ou para a calçada iluminada pelas estrelas.
Não havia dia melhor para nós meninos daquela época que um dia de falta de energia!
Como era bom termos a família toda no ninho dos pais ouvindo estórias de trancoso!
Como era agradável reunirmo-nos na calçada e observarmos tantas famílias a fazer o mesmo!
Olhar o céu; aguardar uma estrela cadente e dar um nó na camisa para fazer um pedido; acender uma pequena fogueira e assar carne ou milho verde; ouvir histórias de assombração; ver nossa irmã mais nova adormecer no colo da mamãe; receber uma assada espiga de milho do papai!
E, por que não:
Ouvir a cidade inteira gritando comemorando o retorno da energia num uníssono e forte grito: iuurruuuullll
Pensei que nunca mais fosse ouvir isso!
Muito menos aqui numa capital!
Mas hoje ouvi o saudoso grito típico de cearense: “iurrrrrruuuuuullllll”

Luiz Lopes, 21 de março de 2018

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sorriso Caro


Toda semana percorro a Av Duque de Caxias em direção ao centro da cidade.
Quando não há motivação maior, sempre arrumo uma desculpa: vou cortar meu cabelo. 
E assim estaciono meu carro e vou ao salão Presidente, o último dos sobreviventes doutrora de inúmeras barbearias no coração da cidade: Lord, Rex, Imperial e tantas que aguardavam seus fiéis fregueses de barba, cabelo e bigode.
Nesta semana, mostrei uma foto de meu pai com a barba tirada.
Gilberto, barbeiro que também atendia a meu pai quando este ainda me acompanhava nesta agradável tarefa semanal, contou-me:
-Doutor, sempre me lembro de umas de seu pai!
Certa vez ele chegou aqui e reclamou: Oh coisa ruim é a velhice, Gilberto!
-Por que, seu Luiz?
-Ora, caminhava ali pela Praça do Ferreira, quando parei e fiquei admirando uma moça nova, bonita!
-Fez bem! E o que aconteceu?
-Ela veio em minha direção e me pediu 20 reais! Sem vê nem quê!
E eu não tinha feito nada com ela! Apenas olhei rapidamente!
Então eu lhe disse:
-Minha filha, você é muito cara! Se um olhar custa 20 reais, imagine outras coisas!


sábado, 15 de outubro de 2016

Você, amigo está acabado!

Não vou fazer prólogo sobre este assunto. Mas, lembro-me de um fato cômico.
Meu pai estava abstraído no seu comércio. Era mês de agosto. Mês de revoadas das andorinhas e dos conterrâneos que voltavam para Reriutaba na festa da padroeira!
E então o sujeito, esguio e vaidoso, parou e adentrou à loja de meu pai!
- Oi, Lulu! É tu mesmo?!
- Sou, sou o Lulu!
-  Pôxa,"véi" tu tá muito "véi"
Meu pai, calou-se, serenou e olhou para o carioca!
- Tudo bem!
O Fluminense feliz de se achar o tal, querendo se sobrepor a seu contemporâneo, perguntou:
-Pô, Lulu, tu esxtais "velhão" , acabado!
- "Quantosx anossx tu têinsx, Lulu?!
E Então, meu pai, terminando de concluir um livro de escrita e contabilidade, parou e disse!
- Tenho 82 anos (meu pai tinha somente 65!)
E então seu velho conhecido disse:
-Pô, Lulu, tais conservado! Estou "phudido"!
Estou achando que tu estais novo! Estou achando! E, dobrou a esquina triste, deprimido e moribundo!
Papai quase morre de rir!
E aqui começo meu crivo literário:
Não deixemos de nos encontrar com nossos amigos, com nossos primos! com nossos tios!
Não deixemos que a coisa mais deplorável de nossas vidas nos atormente: o Ente vazio e silencioso chamado Velhice ou Idade ou Tempo! Seja lá o que for, aquilo que nos tira a vida paulatinamente.
Visitemos e façamos um happy hour com nossos amigos sempre que possamos.
Pois se demorarmos, quando nos encontrarmos, parecerermo-no-emos bem velhos!
Deixemos que a velhice, a idade, a vida avise-nos diariamente que estejamos novos!
Quando demoramos a nos encontrar, o susto nos aterroriza!
A palavra é pesada, mas é verdade!
Encontrei-me há pouco com meu amigo e dileto colega engenheiro Pontinho.
Cara competente e de índole ímpar. Como achei-o senil! Desculpe-me, amigo!
Sei que também assim estou!
Desculpe-me por lhe escolher como protagonista para este relato, mas poderia ser o Henrique Catiureba, o Manim, o Jefferson, o Ary, o Artur, o Adalberto e, porque não eu?.
Mas a vida é assim! Você se encontra com um velho amigo e o acha acabado, velho e mal tratado!
Mal você sabe que assim, desta forma é que ele está lhe vendo. Efeito espelho!
Continuemos nessa vida que penso: tem sentido??
Sempre seremos mais velhos quanto mais tempo deixemos de nos encontrar!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A CURIOSA HISTÓRIA DO GALLO NERO



O Gallo Nero é a chancela que qualifica os vinhos da região de Chianti. Exposto nas garrafas, o vinho que leva esse selo recebe um certificado de qualidade. Durante a minha viagem pela região, tive a curiosidade de conhecer a história que gira entorno desse galo.

A antiga lenda teve origem no século XII, época das épicas lutas medievais entre as cidades de Florença e Siena que disputavam a região do Chianti.
Senesi e Fiorentini, donos das regiões litigiosoas, resolveram a questão de uma forma muito curiosa e, de certa forma, engraçada. Decidiram disputar os limites das cidades através de uma prova inédita e amistosa entre dois cavalheiros, onde cada um usaria as cores referentes à sua cidade.
Para a amigável disputa, cada cavaleiro partiria de sua cidade ao cantar do galo e a fronteira de Florença e Siena seria definida quando os dois cavalheiros se  encontrassem no meio do caminho entre as duas cidades.  Ou seja, aquele que mais corresse aumentaria sua terra.
Na véspera da corrida, o Siena escolheu um galo branco e Florença um galo preto. Siena, a fim de deixar o seu galo mais feliz e nutrido, encheu seu papo de comida, pois imaginava que bem alimentado, o galo branco iria cantar antes que o outro. Já Florença não alimentou seu atleta.
No dia da disputa, o galo negro de Florença, desesperado de fome, começou a cantar antes do sol nascer, enquanto o galo branco de Siena ainda dormia de papo cheio.
Os cavalheiros partiriam cada um do portão de sua cidade. O cavaleiro de Florença começou o galope com o canto do galo preto, enquanto o cavaleiro de Siena teve que esperar muito tempo até que o galo branco com azia e empanzinado de comida, tivesse coragem de abrir o bico.

Região de Fonterutoli

Os dois cavaleiros se encontraram a apenas 12 km dos muros de Siena, no município de Castellina, local que passou a ser chamado Croce fiorentina, e assim a República de Florença conquistou uma grande parte da região de Chianti através de uma disputa pacífica.
O acordo entre as cidades foi honrado e as fronteiras das duas ficou sendo ali mesmo, no local de encontro dos cavalheiros. Quase todo o território entre Florença e Siena ficou sob o domínio da República Florentina. Hoje, a região é responsável peça produção dos famosos vinhos Chianti que recebem o selo do Gallo Nero, que são fabricados com rígido processo, qualificando-o pela superioridade.
A história que emoldurou a lenda do galo Nero revela uma sabedoria enorme e prova que nem sempre uma disputa precisa ser marcada por sangue e morte.  Quanto ao galo branco, deve ter sido servido no banquete da vitória de Florença.
Mas, por que me lembrei desta história? Ora, meu pai hoje descansando em casa gosta de conversar comigo sobre muitos assuntos e, de preferência, aqueles que lembram sua juventude e nossa terra.
Até 1984 o distrito de Varjota, então Araras pertencia ao município de Reriutaba, nossa cidade natal.
Meu pai sempre gostava de elencar o assunto: “ Araras passou de Reriutaba”, "o comércio de lá é mais desenvolvido, a feira é maior e o dinheiro vai mais para lá do que para cá!"
E daí, enveredava a dizer que o povo do Araras é mais trabalhador, o de Reriutaba mais acomodado. Não queria de forma alguma minimizar-nos. Apenas achava que o povo de Reriutaba era mais família, enquanto o do Araras era mais comércio. O Luiz Castro, seu velho amigo de infância era o prefeito àquela época do projeto de emancipação do Araras (atual Varjota) e, juntamente como outros líderes locais não fizeram muita questão em aumentar o limite de Reriutaba, pois entendiam que a parte mais valiosa do município era o pé-de-serra e não a futura área irrigada do Araras-Norte. Enquanto os políticos e líderes do Araras, capitaneados pelo Gentil Pires, Neto e Pio foram mais florentinos. Tanto é que o limite entre os municípios de Varjota e Reriutaba fica tão somente a cerca de 3km de Reriutaba e a 9km de Varjota. O galo do Araras correu mais cedo.
Esta resenha não mitiga o legado político de nossos líderes de então. Mas, este fato é apenas uma analogia pontual de limites territoriais. As duas cidades são irmãs e as comunidades vivem em pacífica harmonia.
Luiz Lopes Filho,
Fortaleza, 28/09/2016




terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Desapego


O Desapego

Em nossa vida, vamos acumulando tantas coisas, e não só lembrança não, é "troçalheira"  mesmo. O apego, embora se revele como ambição do prazer pelo ter, nem sempre pode ser julgado desta maneira. O que ele representa para mim é saudosismo! É identificar certos objetos, não pelo valor econômico, mas pelo apego afetivo. Instrumento de um trabalho que me dava prazer, como segurar uma máquina de costura, ou ainda tantos livros, manuscritos, cartões de felicitações, exercícios do curso de datilografia ou boletim da primeira escola, cartão de vacinação dos filhos, cartas, apostilhas de quando ainda cursava faculdade e até farda de colégio.

Passei a vida guardando fotos cartões de festas, cartas... Assim fica difícil se desvencilhar dessas coisas materiais que me trazem boas recordações. Mesmo morando em outra cidade, há quase três anos, ainda não me atrevi largar a minha residência em Reriutaba. Isso é apego? Acho que não. É ambição ? Também não. É amor! É medo de desapegar dos vizinhos, dos amigos. É segurar o vínculo que me une ao meu torrão natal, aos espaços conquistados.  Está lá a casa... Estão lá os móveis, os quadros na parede, as roupas nos armários e as lembranças de um tempo a cada dia mais distante!
 
Hoje cedo li esta linda mensagem escrita pela mamãe. Não me contive e respondi com lágrimas nos olhos à minha falta de desapego pelo passado. Ainda vou a Reriutaba com muito mais frequência que minhas irmãs. Talvez pela missão de limpar as teias de aranhas pelos cantos, varrer o chão empoeirado e sacodir fronhas das camas de minha velha casa. Talvez para aguar as plantas que continuam verdes ante tanto calor e aridez lá em nosso sitiozinho ao pé-de-serra. Talvez para dar manutenção na piscina que não tem a transparência no tempo em que o papai e seu ajudante Buxexa dela cuidavam com tanto amor para receber-nos em algum final de semana, no carnaval ou na Semana Santa.

Recentemente voltei ao berço e foi assim que encontrei meu quarto. O rangido da porta ao abrir me revelou uma pequena luz refletindo em meu retrato um telefone verde de brinquedo que segurava nos meus cinco anos de idade; no cantinho a marca em itálico da “Aba Film”. O guarda-roupas entreaberto, a cama carente de um bom sono. No hall, velhos retratos de tios que se foram, de fraternas infâncias que se distanciaram, de momentos que teimam em espremer os cantos de nossos olhos e molhar meu rosto.

No SíTioLulu tudo se repete: a varanda relembrando o som do balançar das redes, o deck ouvindo as gargalhadas regadas a copos de cerveja e o som infantil da piscina cheia de crianças e sobrinhos. Hoje, apenas o zumbido de abelhas tentando à borda, beber um pouco daquela clorada água.  

De repente, parece que acordo do passado e vejo tudo tão silencioso, vazio, seco! As poucas plantas que sobraram da severa seca ameniza o desolamento: as Bougainvillea  continuam lá rosadas. O curioso é que até mesmo entre elas há sempre uma parente mais forte que resiste melhor às adversidades da vida, pois ao lado de uma mais rosada e viva, está ali uma mais acinzentada e murcha.

Desço ao leito do riacho; apenas areia e seixos esperando a água que não desce do pé-de-serra. Mas, ao verificar o olho d’água: alegria! Que bom que continua cheio e límpido. E é com essa fonte resistente que ainda mantenho vivo aquele terreno, como assim nomina meu pai.

Volto ao platô e olho os cajueiros. Floraram? sim, floraram!  Mas, poucos foram os cajus que brotaram. Tento colher alguns, mas são poucos. Prefiro deixar para alimentar os pássaros. E, vejam só: como a Natureza é sábia e a Seca também tem seu lado provedor. Os cajueiros deixaram os melhores cajus em suas copas mais altas para que ninguém os colha, somente os pássaros e abelhas deles usufram. Entendi o recado da Natureza e preservei os poucos e altos cajus.

          E assim volto de mais um encontro com o passado, plagiando meu dileto poeta de Alegrete, Mário Quintana: “Quando menos se espera já é meio-dia, já é dezembro e então chegou janeiro novamente e lá se foi grande parte de nossas vidas; vivamos hoje!”

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Lembranças Póstumas

Lembranças Póstumas III


Tia Terezinha Taumaturgo
Orlando ao lado de Felipe Aguiar acenando e Chico Pinto de camisa marrom 

Hoje é dia daqueles que partiram para a casa do Pai Eterno. Tantos já se foram e, em nome deles, homenageio minha tia Terezinha Taumaturgo que tão recentemente foi ao encontro de Deus, deixando-nos com tantas saudades!
Algumas percorreram longa estrada e, quando as encontramos, já estavam de saída. Outros, ainda nos primeiros passos da vida, passaram para o outro lado.
Lembro-me de tantos. Assim como minha tia-madrinha, a partida de meu compadre, primo e amigo Evandro Filho ainda aviva minhas tristezas e, ao mesmo tempo, a lembrança de sua maneira alegre e veloz de viver. Seu espírito aventureiro pela velocidade segue analogia da partida do Felipe Aguiar onde a velocidade fora substituída pela liberdade extrema de saltar, de viver ao extremo da alegria ou pela defesa intangível da família como foi a motivação da partida do Carlinhos da Tia Antonieta Melo Soares.


Evandro Filho 
Estas atitudes e ações de cunho impulsivo e heróico traem no silêncio e na letargia de nossos ouvidos.
É desta forma que meus finados estão presentes: em suas lembranças, em suas marcas alegres e edificantes neste plano mundano e a Deus peço-lhes paz:
Na honestidade de meus avós José Calixto e Antônio Teófilo;
Antônio Teófilo Rodrigues
 
No amor incondicional de minha tia Terezinha Memória Taumaturgo Lopes;
Na firmeza da Dona Aidan, minha tutora quando jovem estudante;
No respeito e amizade a meus grandes professores Coronel Felizardo de Paula Pessoa Mendes, Coronel Nunes, Major Studart, Julian Hull, Coronel Lomônaco, Coronel Prado e o inesquecível franco professor de português: Parlevu;
Na alegria constante dos primos Felipe Lopes Aguiar, Carlos Melo Soares, Zé Augusto, George Rocha e Evandro Filho;
Na brilhantina e boa apresentação do Seu Juvenal, pai do amigo Paulo Araújo.

Nos sorrisos serenos da Dona Sinhá Taumaturgo, Dona Mariinha Freitas e de Dona Terezinha Furtado, mãe do Luís Júnior;
No trabalho social de Dona Mariinha Sá;
Na irreverência cômica da Dona Antonieta Bôto Cruz e de Dona Artemísia Lemos;
Na simplicidade do Dr Assis Martins;
Na simpatia do Seu Manim, pai do dileto amigo Dr Hermenegildo Farias Filho.
No zelo e amor ao próximo do Gerardim Doido (doidos somos todos nós; o Gerardim era fraterno, tão somente isto!);
Na inteligência de nosso compositor momino Mestre Piru, meu primo e filho do Seu Filemón;
Na cultura de Edmar Bezerra e no empreendedorismo educacional de Edson Bezerra;

Na humilde e honesta lidas de Seu Joaquim Morais em sua padaria e de Seu Zeca Alves em seu armazém;
No profissionalismo do amigo eletricista Tarciso;
Na vida simples e desprendida  de Gerardo Braga e do amigo Bandido (cidadão que tinha todas as qualidades, menos de bandido);
Na amizade e franqueza do Pretim Rodrigues, pai de nosso amigo Raimundo;
Nas rondas de Seu Dionísio, zelando pelo Reriutaba Clube;
No labor de meu primeiro dentista, Dr Osvaldo Lemos;
Na humildade prestável de Yayá Taumaturgo;
Na meiguice e amizade de nossa prima Maria Alice Soares; Dona Nair Paulino, do inesquecível amigo Antenor Paulino e do amigo Abílio César;
Na afeição sincera e silenciosa de Seu Demarzinho, pai de meu grande amigo Zé Aldemar Mesquita;
No profissionalismo incansável e materno estendido pelas mãos santas de Dona Maria Portela que deu as primeiras boas-vindas a muitos conterrâneos;

No trabalho saudoso e prestável de Seu Joca e de Chico Eudes;
Na probidade e cidadania de Seu Nóbrega, nobre coletor;
No orgulho sadio do sincero Zé Mourão;
Na amizade de Seu Otávio Torres, pai de meu amigo Chico Torres. Dele ganhei de presente minha primeira calculadora com display de leds, algo bizarro e ultratech para a época;
Na amizade sincera do "cumpade" de meu pai, Otávio Mororó que se orgulhava de seu filho  Washington, avisando previamente que o mesmo seria médico, mesmo ainda cursando a segunda série do primeiro grau; mostrando destarte sua altivez e amor paterno.
E, quando meu pai o repreendia dizendo:
“_Cumpade quem é este seu filho que vai se formar em Medicina?
Ele logo o retrucava: _“ora, Cumpade Lulu, é o Washington”
_Washington, meu afilhado? Ele ainda faz a 2ª série!
- Ora, cumpade Lulu, você já viu algum médico que não tenha cursado a 2ª série do primeiro grau?”
De Seu Antônio Mororó do Posto, homem probo e trabalhador;
Do "cumpade" do papai, Antônio Mororó, que sonhava um dia ir à Santa Quitéria em estrada asfaltada e achava que isto não vivenciaria (tinha razão!);
Na amizade de Seu Antônio Ximenes e de Seu Salim, sempre presentes em minha casa nos jogos de baralho com meu pai;
De Gerson Bertoldo em sua lida diária, transportando os malotes bancários;

Do Manoel Linhares Pé Sêco, esposo da Aurinha com sua caminhonete pegando os cariocas que chegavam de Horizonte (empresa de ônibus) no Ponto do Françuar;
Na juventude ceifada do divertido Mairton Castro;
Nos acordes do Raimundo Paiva em tardes de sábado no seu alpendre lá na Santa Cruz Velha;
No bom atender em seu bar: saudoso João Abraão;
Na humildade de Seu Manoel Linhares, BolaAeto e Vieirinha;
No alfabetizar incansável da tia Beatriz e de Dona Irene Ximenes;
“É uma satisfação” no sorriso constante do Dodó Passos,
Na amizade familiar dos tios Deusdedit, Sitônio, Osmundo e Ita;

Nas cômicas repentes do padrinho tio Assis Lopes e de Gerardo Nel;
Na folia do Seu Saldanha, tio Assis e do Locha Taumaturgo em dias de carnaval;
Na companhia agradável do amigo Fernando Taumaturgo;


Fernando Taumaturgo

Do primo Marcondes Soares, meu peixe nas tardes de carnaval do Reriutaba Club;
Na beleza de Elice;
Na hilárica franqueza do tio Fernando Taumaturgo, Atibones e Dona Tintinha; 


Tio Fernando Taumaturgo à esquerda
Na firmeza e educação de Seu Zé Edmilson Aguiar;
Na sadia irreverência do Seu Zé Taumaturgo e na paciência de Dona Geny Bezerra;

No respeito e humildade do ourives amigo Laércio;
Na matura amizade do Seu Adjemir Castro;
Nos ensinamentos religiosos do Monsenhor Ataíde Vasconcelos;
Na fé familiar da tia Djanira e na simplicidade do tio Pedro Teodoro;

Na sinceridade do amigo Chico Pinto, defensor da coisa pública e antagonista do neoliberalismo tassista;
Dos motes e ditados do Diassis da Loja com seus chevetes e leruás;
Da alegria do pequeno Manilim e de Luís Filho do Luís Fulô;
Dos versos e irreverência do Zé Aldir do Seu Coquim;
Da central telefônica do Seu Alderico Magalhães;
De seu Tomé Moreira, sentado à tardinha na calçada de minha rua;
Do uniforme claro do honesto e sincero parente Seu Zezé da Dona Lessinha;
Na presteza ímpar do Seu Firmino a quem tenho apreço infinito;

Na gentileza e nos passos de forró do Seu João Vapor;
No carinho infantil do Careta e do Curicaca;
Na serenidade dos seus Chaguinhas (“da loja e do bar”), Dona de Lourdes, Dona Tonha Lucca e Dona Lilioza;
Nos passos guiados de Seu Raimundo Honório e do Seu Antônio Gama que tinha uma reverência enorme a meu pai;
Na ébria alegria do Denizar, Cumbuca, Louro Preto, Zé Miguel e Careca;


Denizar
Nos foles do jovem sanfoneiro Xuxa;
Nos estridentes e fortes gritos do leiloeiro Chico Rosendo nas noites de agosto;
Nos inúmeros pacotes  e malas do Seu Doquinha ao embarcar no trem para Fortaleza;
Na matutice admirável e respeituosa de Chiquim Galvão e Moniquinha em manhãs de feira de sábado, mascando seu fumo e olhando placidamente para os transeuntes;
Na vaidade política do grande prefeito Ivan Rego; na representatividade de Albano Veras e Davi Morais;
 
Ivan Rego  
Enfim, de todos aqueles reriutabenses que deixaram seu legado na alegria, na humildade, no trabalho, na fé e na amizade. Sejam humildes e ora esquecidos, sejam agraciados e ora lembrados.
Sempre haverá um desses reriutabenses ocultos nestas linhas, mas que merecem nosso apreço e  respeito!

Deus os tenha!