domingo, 30 de outubro de 2011

Estação Ferroviária


"Esta moldura não somente lembra a estação ferroviária, nem tampouco nossa Reriutaba. Ela consegue numa estática e calada imagem trazer-nos lembranças de nossas viagens, de nossa infância e juventude. Por ela passa um filme de longa duração. Filme este onde pudemos sentir o cheiro do mato verde pela janela do trem quando vínhamos passar um feriado na terrinha. Por ela podemos ouvir o tilintar do abridor de garrafas ao passar um funcionário da RFFSA pelo corredor do trem oferecendo refrigerantes. Por ela podemos ouvir o trec-trec do perfurador de passagens pelo chefe de trem. Por ela podemos ouvir o Seu Saldanha tocando o sino da estação após telegrafar e confirmar a saída do horário da cidade do Ipu. E, a partir de então, poderíamos saber se viajaríamos sentados ou em pé, pois somente após a partida do Ipu, poder-se-ia vender poltronas no tão sonhado Sonho Azul.
Estudando em Fortaleza ou não, todos nós podemos extrair desta foto um punhado de saudades, de alegrias e de tantas emoções vividas em tão lembrado prédio ferroviário. Podemos lembrar até do carro da Cobal que oferecia tantos produtos mais baratos dentre outras novidades. E, puxando um pouco mais pela memória, quem não pescou ou tomou banho no rio da ponte?! O tempo enfim se vai, mas as lembranças ficam estampadas em tão sugestiva fotografia".

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A galinha que se escondeu atrás do caixão de São Vicente



A galinha que se escondeu atrás do caixão de São Vicente


Nos idos de 1975, quando tinha uns 8 anos, havia um armazém de secos e molhados que pertencera ao seu Luís Taumaturgo.

Era um depósito antigo onde se guardavam as safras de oiticica, cera de carnaúba em pó e em blocos que pareciam rapaduras escuras, além de castanha de caju e fardos de algodão. Naquela época nosso município tinha muitas safras e, sem programas governamentais de melhoria de renda, restava então trabalhar. Ah, como era bom quando os caminhões iam transportar o algodão para Sobral. O armazém era aberto antes dos velhos chevrolets chegarem; e nós, crianças vizinhas, ficávamos escalando aqueles fardos de algodão. Eram nossos pula-pula de antigamente.

Saía um pó fino daqueles fardos, mas nunca pegavámos resfriados daquilo, nem nossas mães preocupavam-se se iríamos cair ou não. As pilhas de algodão ultrapassavam a altura das espessas paredes internas e se batiam com os sacos de oiticica do lado oposto.

Debochava de meu primo que tinha medo de escalar as pilhas mais altas. A brincadeira acabava quando os chevrolets chegavam.

Nos fundos do velho armazém havia um terreno onde se erguia um velho pé de canafístula, poleiro de muita sabiá, rolinhas e azulões. Era do muro do quintal lá de casa que eu passava o dia a mirar os galhos da canafístula, tentando derrubar um azulão ou uma rolinha.

A espingarda de pressão foi um presente de meu pai; e que presente!. Depois de chegar do colégio e o sol cair mais um pouco, subia o muro. Era eu ficando livre das obrigações colegiais e os passarinhos livres para cantar naquela frondosa canafístula.

O Pedim da Dona Quita, amigo meu, tinha melhor mira em baladeira, como assim chamávamos os estilingues de hoje; até porque vivia no meio rural chamado Caiçara e passava as férias caçando. Tinha inveja dele por não ter tão boa mira na baladeira e ele, sem dúvida, de mim, por não ter minha boa mira na espingarda. Dizia ele que se eu acertasse o coração de um beija-flor e engoli-lo ainda tremulando, não erraria mais um tiro. E haja chumbinho tentando matar um beija-flor que, para graça da ecologia, nunca consegui.

Como a arma da vez era a espingarda, ele tinha direito a um tiro caso descesse o muro para o quintal do seu Luís Taumaturgo para pegar algum passarinho abatido pela ingênua maldade daqueles meninos. E isto era o que mais dava medo: descer ao velho quintal e ficar bem perto do caixão de defuntos de São Vicente. Na verdade, aquele caixão era um meio de transporte de pessoas que sequer tinham uma rede para serem transportadas até o cemitério Nossa Senhora do Carmo. Não sei se era a Paróquia ou a Prefeitura que doava este transporte funeral para estes infortunados que, ao serem enterrados, devolviam o velho caixão; não sei se agradeciam ou reclamavam até porque ficava folgado para alguns e apertado para outros. Era guardado num quartinho abandonado e sem portas nos fundos do armazém do seu Luís Taumaturgo.

Quando algum pássaro baleado caía mais para a direita, víamos o caixão: meio losangular, de tecido preto, encostado à parede, com duas fitas brancas em forma de cruz centralizadas em sua tampa. Não havia medo maior do que se deparar com aquela imagem.

Mas sempre quando descíamos ao velho quintal, olhávamos de entreolho para o caixão e corríamos escalando o muro com os peitos e barriga, se arranhando e pulando mais alto do que era possível, como se os defuntos fossem nos aparecer e reclamar do desconforto caixão de São Vicente. Este era o preço que o Pedim pagava para usar a espingarda de pressão e eu, quando queria caçar sozinho.

Certo dia, meu pai ao chegar do trabalho notou a falta de uma galinha do quintal lá de casa e, para nosso temor concluiu logo que tinha fugido para o vizinho: o difamado armazém onde se guardava o caixão.

Subimos o muro e logo vi a galinha cacarejando e caminhando para o quartinho onde guardavam o caixão.

Gritei lá de cima do muro:
- Papai, a galinha não pulou pra cá!
- Que conversa, menino! Deixa eu subir este muro.
-Puxa vida, o papai vai ver. Pensei falando.
-Desça! Vá lá embaixo pegar a galinha!

Desci, atemorizado e, ao me deparar com a galinha atrás do caixão, sequer pisquei os olhos, corri de volta, dei um pulo tão alto que consegui segurar no topo do muro!

Papai não ficou decepcionado com meu medo do caixão e sim surpreso com tanta força ao escalar o muro de uma só vez. É a força do medo! E a galinha lá ficou.

Depois ficamos rindo da palidez de meu rosto e dos olhos esbugalhados do Pedim.

Papai depois chamou o Fifiu ou foi o Sacola, meninos que faziam recados naquela época, para resgatar a galinha detrás do caixão de São Vicente.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tia Terezinha Taumaturgo




Quando criança, chamava-a de tia-madrinha. Casada com o tio Assis Lopes, irmão de meu pai, tia Terezinha trabalhou na Junta Militar e, ao sábados, dia de  feira em Reriutaba, ajudava o marido na farmácia.

Sempre procurava aconselhar os filhos e também os sobrinhos no intuito de acabar com rixas, brigas infantis e mal entendidos entre irmãos. Parecia uma mãe de todos preocupada com tudo.

Lembro-me que pelos anos de 1976, a meningite ameaçava o interior, chegando a vitimar algumas crianças. Tia Terezinha juntou o máximo de crianças que pode: filhos, sobrinhos, vizinhos e, com muitos braços embarcou todos na velha linha de ônibus Horizonte para Fortaleza, buscando vacinar todos. Para nós, parecia que a meningite corria atrás do ônibus. A lentidão da Horizonte pela estrada carroçal até Sobral tornava-nos presas fáceis da doença que nos espreitava. Somente quando chegamos na via asfaltada é que nos sentimos seguros. Fomos todos vacinados pela Tia Terezinha!

Na igreja sempre foi uma colaboradora, decorando o altar, ajudando ao Monsenhor Ataíde a melhor agrupar e aumentar o rebanho, principalmente entre jovens. Deixava a missa de domingo mais bonita e a festa da Padroeira Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro mais brilhante.

Ainda hoje é assim! Simpática e amável! Preocupada e consoladora!

Ah, hoje é seu aniversário! Que Jesus lhe conceda saúde e felicidades como sempre você buscou para tantos nesta caminhada!

Luiz Lopes Filho, 21 de outubro de 2011







Cachoeira do Juré

“Num inverno distante, sob a cachoeira espumante, lembro-me da vida feliz e nada estressante!
Na estrada carroçal, o velho fusca piava a caminho do rio Juré!
Na frente, papai e mamãe, atrás os meninos, as marmitas e os refrigerantes!
Sobre as pedras ensombreadas, lá nós descançávamos e no ronco da cachoeira nos deleitávamos!
Alegria molhada, areia nos pés e a felicidade no rosto estampada!.
De volta à cidade, a chuva tinia e o meio-fio de água se entupia!
Era tanta água que das cobertas saía,  que pelos jacarés eclodia!
Anunciando um inverno alegre que gritava pelos quintais “tira a lenha da chuva” Avia!
Trocando o calção molhado, pelas calçadas saía!
Barquinhos de papel fazia e até a esquina acompanhava
E o barquinho a correnteza afundava” !

domingo, 9 de outubro de 2011

Reriutaba Clube

Reriutaba Clube
Não me lembro qual foi a primeira vez que adentrei ao Reriutaba Clube. Quando criança, acompanhando meus pais num domingo de carnaval? Provavelmente!
O Reriutaba Clube faz parte de todos nós, reriutabenses. Foi lá que tentei dançar pela primeira vez forró sem saber, foi lá que tantos de nós ficamos com a garota que sonhávamos namorar.
A saudade maior que tenho do clube foi nos idos de 1990. Era 3ª feira de carnaval. Último dia de folia!......o dia já estava raiando e ainda se ouvia a banda tocar uma marchinha famosa. Caminhava pela rua do Ginásio Raimundo Mesquita e ia deixar a namorada em casa. Eram 5 da manhã. Ficaram gravadas em minha memória estas imagens: O Reriutaba-Clube e sua banda, a lembrança da namorada, a banca de café do Manel da Nana, a banca do Seu Antenor, as saudosas ruas de um carnaval distante que o tempo desbota pouco a pouco!.
No Reriutaba Clube vi a moralidade na administração do Sr Antônio Ximenes, do Dr Osvaldo Lemos, do Sr Adjemir, e de meu pai, Sr Lulu.
Cuidavam do clube tanto quanto o arrumar de suas gravatas.  É......não  se podia entrar no clube sem paletó, nem muito menos sem gravata em determinadas festas.
Lembro-me bem que numa Festa das Moças entrei no Reriutaba Clube e meu pai estava na diretoria. Porém, lá dentro resolvi tirar a gravata. Estavam numa mesa de madeira pintada de verde lousa e um número em branco 125:  eu, os Tatás, o Zé Jr, o Zé Antônio do Seu Dola, o Hélio e meu primo, Marcelo. O Antônio Macedo tirou uma foto nossa. Quando meu pai viu a foto, semanas depois, deu uma bronca. – Como você tira a gravata numa festa destas? Que absurdo! Eu barrando pessoas sem paletó, sem gravata e você sem gravata dentro do clube!
16 anos de idade! Quanta simplicidade em tudo! No respeito às garotas, aos senhores da sociedade, à própria Reriutaba!
Todos sabiam nossos passos, quem bebia um pouco mais, quem quebrava um copo (mesmo sem querer), quem resolvia errar!.
Era ruim? Talvez! Mas era uma forma de dotar aquele simples clube num paço social, num lugar de diversão e respeito! Eis minha Reriutaba que tenho saudade!
Eis a sociedade reriutabense dos idos de 1980! E doravante começou a decadência do Reriutaba Clube que culminou nesta triste imagem que infra-destaco:


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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Breves Diálogos

Conversando com um grande amigo meu, Dr Lucídio, que também tem origens no interior e vivenciou as coisas do sertão, comentei com ele como é difícil você sair cedo de seu lar para estudar na capital, sozinho, em casa de tios, sem telefone, apenas com uma carta por semana que minha mãe me escrevia. Ele me contou como foi sair de Teresina para estudar em Recife e que hoje estava vivenciando a distância de sua filha para outras terras. Eu lhe sintetizei como foi minha viagem  naquele dia 07 de dezembro de 1978.

A partida de Reriutaba para Fortaleza de trem.

Lucídio,
Era uma sexta-feira do dia 07 de dezembro de 1978.
Da minha casa para a estação era pertinho, tanto é que costumava pegar carreira com meus primos pra ver quem chegava primeiro.
Naquela manhã, a estação ferroviária parecia distar quilômetros de minha casa.
O trem que tanta alegria me trazia diariamente, naquele dia só me trazia dor-de-barriga. Caminhava com uma mala vermelha apertada de roupas como meu coração de saudades. Saudades nem sei de quê, era de tanta coisa. Dos meus pais, da minha casa, do meu colégio, dos meus amigos, do inverno, do São João, do Natal, enfim da própria infância que parecia me escapar entre os dedos, ficando ali naquela rua.
O sol encobria de suor as lágrimas que teimavam em apontar nos cantos dos olhos. Assim parti para vir estudar aqui em Fortaleza. Nunca esquecerei.
Após tantos anos, ainda guardo a oração que minha mãe colocou para mim na bolsinha lateral da mala.
O resto desta história você ainda lerá num livro que pretendo escrever.

Com apreço, Luiz Lopes Filho, 16/02/2006


Eis a oração que ainda hoje rezo:
Senhor,
No silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-Te a Paz, a Sabedoria, a Força.
Quero olhar hoje o mundo com os olhos cheios de amor; ser paciente; compreensivo, manso e prudente.
Ver além das aparências teus filhos como Tu mesmo os vês, e assim não ver senão o bem em cada um.
Cerra meus ouvidos a toda calúnia.
Guarda minha língua de toda maldade.
Que só de bênçãos se encha meu espírito.
Que eu seja tão bondoso e alegre, que todos quanto se achegarem a mim,    sintam Tua presença.
Reveste-me de Tua beleza, Senhor,e que no decurso deste dia eu Te revele a todos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tia Antonieta

Tia Antonieta


 
Falar de minha infância, é lembrar da tia Antonieta. Nossa vizinha, pulando a calçada do seu Joaquim Morais. À frente de nossas casas (a do meu pai e a do seu Joaquim), duas frondosas algarobas onde todos os dias após o almoço me sentava descascando uma laranja ou um pedaço de cana-de-açucar. Muitas vezes contando os vagões de um cargueiro que diariamente passava na linha férrea à frente de nossa casa.

Depois era correr para a tia Antonieta. Casa mais simples com uma pequena varanda na entrada delimitada por um portãozinho. Havia uma janela lateral de venezianas e paredes sempre de cor rósea em tinta hidracor. No primeiro quarto uma sala com muitas revistas. Os quartos-de-dormir ficavam no meio. O último era o da tia Antonieta, mais arejado por uma janela que se abria para uma varanda interna. Duas salas, uma de estar e outra de jantar. Uma pequena varanda ao lado da sala de jantar e, por fim, antes do quintal uma cozinha e um pequeno banheiro lateral.

Era uma casa alegre. A tia Antonieta era uma segunda mãe para mim e para as minhas duas irmãs. Naqueles idos, tinha somente duas irmãs.

Depois do almoço quando para lá íamos, ficávamos até o chamado café-das-duas como muito bem a tia chamava.

Ficávamos sempre em cima do pé-de-goiaba. Atirando em passarinhos e comendo as verdosas goiabas.
Intercalávamos também algumas brincadeiras como jogo de bila ou de triângulo no úmido terreno daquele quintal, onde também se desfrontavam graviolas, tomates-cereja e também lá junto à cerca dos fundos, mamoeiros.

Do que tinha mais medo era da velha cadeira de couro meio surrada onde se sentava o “Manel”, um velho senhor criado dos pais da tia. Ia para lá todos os dias tomar café, sentar um pouco. O coitado de bengala andava bem devagarinho seja pela idade, seja pelo reumatismo. Acho que trabalhava no sitio da serra para os pais já falecidos da tia Antonieta. E, como ficara órfão de patrões e sem forças, arrastava-se todos os dias, exalando um cheiro insuportável de urina.

À noite, minha mãe saía para ensinar no Colégio Nossa Senhora das Graças, conhecida como Providência. Ensinava de 19h à 22:00h. Eram tantas disciplinas que nem sei como minha mãe dava conta: Literatura Portuguesa, Literatura Inglesa, Pedagogia, Português, Inglês...Puxa!, naquela idade nem sabia o que significava esta tal de Pedagogia. A noite era uma eternidade para nós crianças. Acabávamos passando as primeiras horas da noite na casa da tia Antonieta, muitas vezes no seu colo.

E a tia, desprovida de qualquer maldade, contava-nos histórias de trancoso que nos fazia tremer de medo. Eram histórias do Gato de Botas, da Alma Penada, do Barba Azul e de inúmeras outras que ela terminava com um ditado: “De dia para os vivos, de noite para os mortos”.  Pense num medo que percorria os espinhaços e nos fazia correr para casa esperar a mamãe!

Hoje sempre me encontro com a tia Antonieta aqui em Fortaleza e continuo tendo um carinho imenso por ela.

Luiz Lopes Filho,  março de 2001