segunda-feira, 9 de julho de 2012

Trem da Vida

Trem da Vida



Há meninos do interior chamados de beradeiros que significa bem mais que morar na beira de estrada, acrescenta também sua situação de matutos. Sempre morei na beira de estrada....de ferro: fui também um menino beradeiro. Em certas madrugadas acordava-me com o barulho do trem cargueiro que fazia o percurso Teresina-Fortaleza, levando combustíveis e trazendo semente de oiticica, de algodão e diversas mercadorias. O ranger das rodas nas bordas dos trilhos acordava-me às duas da manhã, mas também me fazia adormecer como se o trem fosse o arco a escorregar pelas cordas de um violino de ferro, soando uma canção mal composta.


Vejo-me sempre a incluir uma estação, um vagão ou uma locomotiva em meus textos, talvez por este comboio sempre ter vivido a meu lado, ora indo, ora voltando. Seja quando meu pai viajava para Fortaleza e eu ficava esperando o trem trazê-lo de volta com muitas novidades e presentes; seja quando minha mãe voltava de uma viagem a Sobral; seja quando tive que deixar minha terra para estudar na capital.

O trem sempre foi um condutor de minhas alegrias e de minhas saudades. E também de minhas dores de barriga. Ainda criança, sob a tutela de seu Firmino, ao término das férias, tinha que retornar à Fortaleza e, no pequeno percurso de minha casa à estação, carregava sempre uma mala e uma dor de barriga, fruto do somatismo da saudade e da ansiedade. Este mal estar só diminuía quando já embarcado, acenava para meus pais e encarava a volta como uma tarefa, uma obrigação natural.

Li um dia desses um texto sobre um trem que ligava nossa vida a uma viagem, numa analogia quase perfeita, porém um pouco laica ou pelo menos desprovida de uma fé mais intensa no Criador.  E a viagem é mais ou menos assim descrita pelo Trem da Vida: 


Quando nascemos, entramos nesse trem

e nos deparamos com algumas pessoas que julgamos,
estarão sempre nessa viagem conosco; nossos pais.
Infelizmente, isso não é verdade.
Em alguma estação eles descerão e nos deixarão
órfãos de seu carinho, amizade e companhia insubstituível..ou também tenhamos que descer antes deles e deixá-los com uma imensa ferida de saudades.
Mas isso não impede que, durante a viagem, pessoas interessantes
e que virão a ser super especiais para nós, embarquem.
Chegam nossos irmãos, amigos e amores maravilhosos!
Muitas pessoas tomam esse trem, apenas a passeio.
Outros encontram nessa viagem, somente tristezas.
Ainda outros circularão pelo trem,
prontos para ajudar a quem precisa.


Muitos descem e deixam saudades eternas,
outros tantos passam por ele de uma forma que,
quando desocupam seu acento, ninguém nem sequer percebe.
Curioso é constatar que alguns passageiros, que nos são tão caros,
acomodam-se em vagões diferentes dos nossos.
Portanto, somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles,
o que não impede, é claro, que durante o trajeto, atravessemos
com grande dificuldade nosso vagão e cheguemos até eles...
Só que, infelizmente, jamais poderemos sentar a seu lado,
pois já terá alguém ocupando esse lugar.
Não importa, é assim a viagem: cheia de atropelos,
sonhos, fantasias, esperas, despedidas...
Porém, jamais retornos.

Façamos essa viagem então, da melhor maneira possível,
tentando nos relacionar bem com todos os passageiros,
procurando em cada um deles o que tiverem de melhor.
Lembrando sempre que, em algum momento do trajeto,
eles poderão fraquejar e provavelmente
precisaremos entender isso, porque nós também
fraquejaremos muitas vezes e, com certeza,
haverá alguém que nos entenderá.
O grande mistério afinal é que jamais
saberemos em qual parada desceremos, muito menos nossos companheiros,
nem aquele que está sentado ao nosso lado.

Eu fico pensando, se quando descer desse trem,
sentirei saudades... Tenho certeza que sim:
Separar-me de alguns amigos que fiz nessa viagem;
Deixar meus filhos continuarem a viagem sozinhos.
Mas me agarro na esperança de que, em algum momento,
estarei na estação principal e terei a grande emoção de vê-los chegar
com uma bagagem que não tinham quando embarcaram...
E o que vai deixar-me feliz será pensar
que eu colaborei para isso.


Luiz Lopes Filho, 
Fortaleza-CE, 09/07/2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Viver ou Juntar Dinheiro?

Viver ou Juntar Dinheiro?


Max Gehringer 

Vocês conhecem o Max? Aquele rapaz que começou como Office-boy  em Jundiaí-SP e se tornou um administrador de empresas e escritor sobre gestão empresarial? Gehringer, sempre simpático nas telas de jornais como CBN e Globo vive a percorrer o país proferindo conferências sobre economia, gestão empresarial e, logicamente sobre gestão de nossas vidas. Os intelectuais, os acadêmicos, mestrandos e o público em geral tem muita admiração pela forma de sua abordagem em certos temas de nosso dia-a-dia.

Lendo sobre um destes, resolvi compartilhar com meus leitores e, principalmente com meus pais. Outro dia, fui cercado por suas indagações carregadas de preocupações próprias de qualquer boa mãe: - Meu filho, vejo sempre você em restaurantes; como vai suas economias? Meu filho, você tem sido previdente? ...E assim por diante. Que bom e quão gratificante a gente ainda ter o privilégio de receber tais conselhos. E o pior é que a gente se irrita: não sei se com as redes sociais que nos delatam onde estamos e o que estamos fazendo ou se com o sadio zelo de nossos pais. Bom, segue então o texto do Max:

Recebi uma mensagem muito interessante de um ouvinte da CBN e peço licença para lê-la na íntegra, porque ela nem precisa dos meus comentários.
Lá vai: "Prezado Max, meu nome é Sérgio, tenho 61 anos e pertenço a uma geração azarada: Quando era jovem as pessoas diziam para escutar os mais velhos, que eram mais sábios. Agora dizem que tenho que escutar os jovens, porque são mais inteligentes.
Na semana passada li numa revista um artigo no qual jovens executivos davam receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico. E eu aprendi muita coisa... Aprendi, por exemplo, que se eu tivesse simplesmente deixado de tomar um cafezinho por dia, durante os últimos 40 anos, eu teria economizado R$ 30.000,00. Se eu tivesse deixado de comer uma pizza por mês, teria economizado R$ 12.000,00 e assim por diante. Impressionado, peguei um papel e comecei a fazer contas, então descobri, para minha surpresa, que hoje eu poderia estar milionário.
Bastava não ter tomado as caipirinhas que tomei, não ter feito muitas das viagens que fiz, não ter comprado algumas das roupas caras que comprei e, principalmente, não ter desperdiçado meu dinheiro em itens supérfluos e descartáveis. Ao concluir os cálculos, percebi que hoje eu poderia ter quase R$ 500.000,00 na conta bancária. É claro que eu não tenho este dinheiro. Mas, se tivesse, sabe o que este dinheiro me permitiria fazer? Viajar, comprar roupas caras, me esbaldar com itens supérfluos e descartáveis, comer todas as pizzas que eu quisesse e tomar cafezinhos à vontade. Por isso acho que me sinto absolutamente feliz em ser pobre.
Gastei meu dinheiro com prazer e por prazer, porque hoje, aos 61 anos, não tenho mais o mesmo pique de jovem, nem a mesma saúde. Portanto, viajar, comer pizzas e cafés, não faz bem na minha idade e roupas, hoje, não vão melhorar muito o meu visual!
Recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam a mesma coisa que eu fiz. Caso contrário, chegarão aos 61 anos com um monte de dinheiro em suas contas bancárias, mas sem ter vivido a vida".
"Não eduque o seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz.
Assim, ele saberá o valor das coisas, não o seu preço."


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Coisa

Coisa

A Cristiane Deusdará é uma daquelas pessoas que nascem noutras famílias, mas que se tornam irmãs pelo carisma e pela amizade. Sempre envia seus emails meio repetidos, meio açucarados, coisas deste tipo. Mas hoje enviou-me uma dessas coisas que pensamos em deletar, mas que enfim, resolvemos lê-las. Não sei quem é o autor dessa coisa, mas só sei que essa coisa é uma coisa boa de ler....


A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.
A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha..
Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.
Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943.. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".
Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. "Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!
Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e A Banda, de Chico Buarque ("Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor"), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava
nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".
Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.
Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, "são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Coisa à toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente." E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".
Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.
Mas, "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: "amarás a Deus sobre todas as coisas".


terça-feira, 8 de maio de 2012

Liz


Liz
Nunca poderia imaginar o quanto nossos pais gostam da gente. Esta constatação só nos acontece quando temos um filho, uma filha. Há oito anos a Liz nasceu e, apesar do pouco tempo, já começamos a escrever um pouco de sua vida, desde seus primeiros passos, seus primeiros balbucios, seus primeiros rabiscos. Lembro-me tão bem do primeiro dia de aula. Rostinho inclinado, dedinho na boca, expressão maior do infantil acanhamento. Bermuda azul e camisetinha branca com o nome Mundo Encantado. Depois vieram outras fardamentas: Tia Léa e agora Antares. Ainda bem que tenho muito para compartilhar sua infância e disto não posso me dispersar.





Rogo ao Senhor muita proteção à minha filha neste mundo cheio de abismos sociais, de pouca fraternidade, de muita ambição, de muita competição doentia. Sei que o tempo vai passar e quero chorar numa feliz emoção quando estiver vivenciando as últimas páginas do  seu caderno cantadas na famosa música de Toquinho: “O Caderno” onde lhes lembro a sensibilidade deste artista:

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...
Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Te acompanhar nas provas
Bimestrais, você vai ver
Serei, de você, confidente fiel
Se seu pranto molhar meu papel...
Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...
O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer...
Só peço, à você
Um favor, se puder
Não me esqueça
Num canto qualquer...(2x)
E que sua infância seja tão bem recordada quanto Cassimiro de Abreu narrou a  dele neste famoso poema:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Luiz Lopes Filho, aos oito de maio de 2012 em Sobral-CE

terça-feira, 1 de maio de 2012

Minha casa era assim

Minha casa era assim

Nos primeiros anos de nossa infância, acostumamo-nos bem cedo com a voz mais grave do pai e, mais afetivamente, com o carinho e o cheiro do colo da mãe. Depois vamos também sentindo e gravando o cheiro da cozinha, de nossos lençóis, do sofá, do canto da sala de visitas e até mesmo com o odor e as cores da velha cortina desfraldada sobre a janela principal da casa.
Nos primeiros anos de minha infância, lembro-me com nostalgia dos traços arquitetônicos, das cores das paredes e do estampado mosaico do piso que ía da soleira da entrada principal até a porta da cozinha.
Como só temos a versão arquitetônica do Autocad,  não se dispondo de nenhuma versão em forma literária, fica muito difícil descrever uma casa sem perspectiva, sem planta baixa ou mesmo sem foto, mas somente com palavras. Vou tentar...,mas desculpem-me os mais exigentes nesta descrição.
Costumava tomar banho cedo, por volta das quatro da tarde e andar de bicicleta apoiada em rodinhas laterais pela calçada de mosaico cinza estampado com  quadradinhos e losangos simétricos . Cabelo liso que nem espaguete escorrido, óculos prateados com lentes anti-miopia-astigmatismo, bermuda engomada com bolsos laterais em diagonal, camisa branca com dois tracinhos à altura do peito e com mangas com um vezinho invertido (em formato de “v”) no antebraço que mais servia para os mais velhos puxar com o dedo indicador e fazer um estalo. Acho que deveria ter 8 anos de idade.
A fachada da casa tinha a parede pintada em verde cana; a porta principal possuía duas folhas com venezianas dispostas em quatro quadrantes na cor bege apoiada numa soleira de pedra vermelha. Na mesma altura do batente que divergia da calçada, havia uma boca de água pluvial, onde costumávamos tomar banho nas primeiras chuvas do inverno. Ah, numa cota de um metro e meio, bem alta para nós crianças, havia um janelão principal em vidro com venezianas em transparência incompleta. Pelo lado interno, havia uma cortina que minha mãe tinha ciúmes, pois era de um tecido mais caro. Às vezes era de um tom vermelho e, em minhas últimas memórias, num tom pastel com flores e arranjos em relevo. Tinha o costume de me assoar naquela cortina quando ficava gripado, logicamente sem ninguém ver.
A sala principal era disposta com um sofá e duas poltronas em tom marrom-escuro. No centro, uma mesinha em vidro com algumas pratas e bebelôs, dentre os quais um jarrão verde que, até pouco tempo,  vi-o desprezado na garagem de meu pai.
Logo de frente para a sala, a alcova de meus pais.  Duas portas bege para a sala de visitas e uma porta para o corredor. Na bandeirola, uns filetes de madeira dispostos em forma de dois losangos circunscritos. Dentro do quarto de meus pais havia uma  porta que fazia comunicação com meu quarto. Naquela época, acho que somente eu e minhas duas irmãs. Ainda éramos três quintos dos filhos. Depois destes dois quartos, havia uma sala de estar. Ali ficava uma televisão da marca Canarinho ABC em preto e branco apoiada em quatro pernas da própria tevê; uma arca com os cristais, bandejas, travessas e melhor cutelaria de minha mãe. Nesta mesma sala havia também uma vitrola. Meu pai costumava trocar a agulha desta radiola quando o som se apresentava com algum ruído estranho, sinal de que a agulha teria que ser substituída. Aos domingos, vinham lá prá casa por volta do meio-dia meu pai, acompanhado de Seu Saldanha, agente da estação ferroviária, o Seu Luís Castro, prefeito da cidade àquela época, o Gladstone, o Seu Adjemir, o Compadre Otávio Mororó e outros amigos.  As faixas mais repetidas na radiola eram Perfídia e Paloma.
Nesta sala de estar havia uma janelinha também em vitrô que interligava com uma pequena área. Ali costumava tomar banho num chuveirão que, nem sei o porquê, tinha um forte jato d’água, diferente das demais torneiras. Foi ali que minha irmã mais velha intoxicou-se  ao tocar nas folhas de um jarro daquela planta chamada de “Comigo Ninguém Pode”.
Depois desta sala, vinha um pequena continuação do ambiente, onde havia uma mesa principal, uma geladeira branca Cônsul que servia de apoio a um pinguim alvinegro e um armário encostado na parede canhota onde se guardavam as baixelas do dia-a-dia. Num canto da parede, à meia altura, apoiado num pedra semicircular um filtro de cerâmica encarnada da marca Jaguar, fabricado em Limoeiro do Norte. Parece que filtros no Ceará só havia desta marca e era o antecessor de nosso atual gelágua. Depois deste ambiente, o mosaico deixava de recobrir o piso. Chegamos à cozinha:  um fogão branco de quatro bocas, um móvel de alumínio piramidal onde se guardavam da frigideira até a panela maior em sua base.


Ali era nossa cozinha. Gostava do almoço dos sábados, principalmente porque tinha um convidado especial, Seu Firmino. O almoço era quase sempre filé, alface, purê, salada de beterraba, cenoura e batata inglesa. Depois, um abacaxi em rodelas. Na sobremesa vinha um pudim e, quem quisesse mais alguma coisa, estendia com um pires de doce de buriti.
Lá no final, à esquerda, havia uma despensa onde se guardavam mais panelas. No canto, um baú e, sobre uma alta prateleira, garrafas de manteiga da terra, além de litros de banha de porco que substituíam o óleo de cozinha. Acho que foi esta banha de porco a responsável pelo primeiro infarto do papai. Laboratório Emílio Ribas, Clementino Fraga e Pasteur ficavam a trezentos quilômetros de distância. Sete horas de trem ou 8 horas de ônibus na velha empresa Horizonte e em estrada carroçável até Sobral. Somente duas opções para se chegar em Fortaleza: fedendo a ferro ou à lama. Quem se importava com colesterol bom ou ruim, triglicerídeos, creatinina ou qualquer outra destas taxas tão comuns em nossas vidas e em exames nossos de hoje em dia?
Lá no final da casa, havia um banheiro bem amplo e, à sua frente um fogão à lenha. Ali se cozinhava a maioria de nossas refeições em panelas mineiras de alumínio fundido. Era o feijão, o arroz e a carne. Somente alguma coisa como macarrão, ovos fritos ou complementos eram feitos no fogão a gás que ficava na cozinha principal.
Engraçado era como o piso de minha casa me faz lembrar de minha infância. Era tão bem tratado para ser um simples mosaico, mas também não tinha muita coisa naquela época: granito? porcelanato? cerâmica de melhor qualidade?  Que nada! Piso nobre e bem cuidado: mosaico estampado ao estilo do piso de muitas igrejas de nossos interiores.
Quinzenalmente, nossa casa era encerada. Primeiro lavava-se toda a casa, depois escorria-se  a água com um rodo e; neste interim, ali estávamos nós crianças a praticar surf de peito, deslizando pelo chão molhado e ensaboado como uma foca desliza pelo gelo. Enxugava-se o piso e, depois do meio-dia, após a lavagem das louças do almoço, passava-se cera de carnaúba por todo o piso. Em seguida, ligava-se a enceradeira. Algum adolescente hoje em dia saberia descrever o que é enceradeira? Lógico que não!  Nem conhece máquina de escrever, um objeto tão importante de um passado tão recente e que foi o antecessor de nossos inseparáveis notebooks, que dirá enceradeira!!!???
Quando se começava a encerar, a empregada nos dava carona, permitindo subir no bojo do aparelho e passear pela casa toda. Ela encerando e nós fazendo um room-tour pela própria casa! E este era nosso automóvel de rodas horizontais que ainda hoje está estacionado num depósito em minha casa (veja abaixo)


Ficava um brilho! O mosaico refletia um pouco de tudo após todo este zelo pelo tão nobre piso!
Mas em toda a arquitetura e lay-out de minha casa, não havia lugar mais querido que o telhado.  Acho que noventa por cento de todo meu tempo ocioso, passava que nem gato, andando pelos telhados.
Oficialmente e com a permissão do papai, mensalmente limpávamos a caixa d’água. Subíamos o telhado e abríamos a tampa de concreto da caixa. Ali ajudava meu pai a limpar a caixa d’água e também desfrutava um pouco daquela piscina elevada.
Mas, no resto da semana, do mês e de todo o ano, costumava a andar sobre o telhado, seja para fazer medo à minha irmã, seja para, com uma espingarda de pressão  mirar para os passarinhos que vinham beliscar os mamões amarelinhos do quintal ou para cantar no alto pé-de-canafístula de Seu Luís Taumaturgo. Também eram meus alvos várias largartixas. Muitas ficaram sem o rabo, seja pelos meus tiros de espingarda de pressão, seja pelas pedras atiradas pelas minhas baladeiras (estilingues).
Outro espaço muito frequentado por nós crianças era o quintal. Ali plantei minha primeira árvore: “Meu pequeno cajueiro”. realmente era pequeno, nunca cresceu direito nem deu frutos, acho que a castanha era estéril. Na época da safra de caju, costumava juntar quatro tijolos e fazer uma pequena fogueira que ficava sob uma prancha perfurada de lata de óleo Pajeú (aquela da negrinha). Colocava as castanhas ali e logo o fogo pulava da fogueira para sobre as castanhas. Depois jogava areia e apagava todos os focos de fogo. Depois era só quebrar as castanhas. Nunca me queimei, apesar de meus nove, dez anos de idade. Nem minha mãe brigava. Ora, passava o dia ensinando no Grupo Alfredo Silvano e também na Escola Normal Nossa Senhora das Graças (antiga Casa da Providência).
Quando chegavam as férias, fazíamos umas estradinhas no quintal e, à margem destas, várias casinhas de barros e também de cimento, bem aprumadas, algumas com pavimento superior e também com direito à impermeabilização da laje com filme de plástico. Tudo numa escala de 1:10, ou seja, com uma altura de piso-teto de cerca de cinquenta centímetros no máximo.
Aos poucos, ali deparava-me com uma pequena cidade. Pintava em tinha hidracor recolhida das prateleiras da loja do papai (as cores mais comuns eram bege, verde cana e cinza). As tintas eram à base d’água que tornavam as paredes daquelas maquetes e o cenário do quintal num verdadeiro complexo da versão americana do brinquedo “ little people”.
 Certa vez meu primo, Carlos, filho da tia Antonieta propôs-se a construir um pequeno trecho de uma linha férrea na minha vila do quintal. Ficou formidável. Os vagões tinham suas rodas apoiadas em eixos de bicicletas e rodavam na bitola do trilho feito de latas de óleo. Os vagões não descarrilhavam. Empurravam-se os trenzinhos e eles obedeciam aos pequenos trajetos. Muito inteligentes tanto o Carlos quanto o Zé, seu irmão mais velho!
Quando vinha a chuva, os trilhos e a vila se decompunham totalmente. Então era o jeito mudar o cenário: transformava o quintal numa pequena lavoura. Em valas bem espaçadas, plantava milho que logo espigavam para minha primeira colheita infantil. Já pensou como era bom assar ou cozinhar o próprio milho plantado em meu quintal?!
Esta era minha casa, este era meu quintal, estes foram trechos de minha infância querida que foi interrompida tão precocemente pela responsável preocupação de meus pais em me encaminhar para estudar em Fortaleza.

Luiz Lopes Filho
Fortaleza-CE, 01 de maio de 2012.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pedro Mauro


Pedro Mauro

Tenho o privilégio de conhecer e ser amigo do Dr. Pedro Mauro Rôla. Pai de três amigos meus: Rômulo, Régis e Renan e esposo de uma senhora dinâmica e serena.
Mas o contexto hoje é o Pedro Mauro, médico radiologista, professor universitário, astrônomo por puro diletantismo, jogador de futebol por pura teimosia. Aos 76 anos, creio que o Pelé não terá a mesma disposição e raciocínio do Pedro Mauro em campo.
Às sextas-feiras costuma encontrar-se conosco numa roda de conversa para discorrer sobre astronomia, física quântica, teoria das cordas e, logicamente sobre futebol. Do racha é assíduo nos sábados à tarde na reunião do Doctor’s Club.
Figuras estereotipadas seguem uma escala lúdico-esportiva que se inicia com jogadores como o Ivan, o Chicão, o Acrísio, o Baiano, o Galeno, o Fujita e vai até o Pedro Mauro. São noventa minutos de insultos, passes errados, arbitragem criticada e de extremos que terminam com desculpas. Todos ali se tornam um grupo de adolescentes que, à visão de um desconhecido, seriam doidos!
Todo este rápido prólogo foi apenas para avultar uma frase incrível que ouvi do amigo Pedro Mauro na semana passada.
Hoje me lembrei, porque nossas vidas estão passando cada vez mais rápido e tenho que praticar o teor da mensagem deste amigo:
“Ah se eu tivesse a idade de vocês! Não existiria no meu dicionário as palavras raiva e briga! Não espere chegar aos 70 anos para descobrir isto!”

Luiz Lopes Filho
Fortaleza-CE, 20/04/2012